Texto 4
Nossa feminista viveria um conto de fadas, mas o príncipe era um cancelado
Era uma vez, em um reino não tão distante, na cidade do Rio de Janeiro, uma jovem mulher que não usava tiara nem tinha pais importantes, mas, quando saía de casa, era abordada por homens desconhecidos que a chamavam de princesa. Sim, nossa mocinha era feminista e lutava por um mundo em que mulheres pudessem passear sozinhas no bosque, sem se sentir ameaçadas.
Até que, certa noite, num karaokê, ela se arriscou a cantar uma música da Kate Bush, quase estourou os copos do estabelecimento, e chamou a atenção de um rapaz que em nada parecia um príncipe. Ele não enalteceu seus atributos físicos, não tentou beijá-la nem a perseguiu quando ela decidiu ir embora. Era o início de uma história de amor. Mas nossa antiprincesa estava decidida a vivê-la sem abrir mão de sua individualidade. O que ela não sabia é que estava prestes a protagonizar uma releitura contemporânea do mais abominável dos contos de fada, "A Bela e a Fera".
Ele era avesso a redes sociais, o que parecia extremamente sexy em meio à surra de selfies e superexposição à qual ela estava acostumada. Mas uma simples busca no Google foi suficiente para desconstruir o tal desconstruído. E assim ela descobriu que seu grande amor era... Cancelado. Um desabafo publicado pela ex-namorada dele sobre a relação abusiva que os dois tiveram repercutiu entre mulheres que viveram situações semelhantes.
É possível se desapaixonar? Parte da Ciência diz que é possível se desapaixonar de forma arbitrária.
Ele tentou se justificar. Disse que sua ex sofria de transtornos psicológicos (o famoso conto da "ex louca"). Que não era mais aquele cara de outrora (o famoso conto do "juro que vou mudar"). E implorou para que ela não desistisse de uma relação tão especial (o famoso conto do "você não vai encontrar nada melhor").
Mesmo sem acreditar em contos de fadas, ela sabia que era mais provável reverter a maldição de uma bruxa do que um cancelamento. E eles não foram felizes para sempre.
CANTUÁRIA, Manuela. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/manuela-cantuaria/2022/07/nossa-feminista-viveria-um-contode-fadas-mas-o-principe-era-um-cancelado.shtml Acesso em: 02 jul. 2022. (Adaptado)
Sabemos que os textos, literários ou não literários, mantêm relações estreitas com o seu contexto de produção: a época, o lugar, as experiências e modos de pensar do autor ou da autora.
Assim, considere o contexto espaço-temporal e cultural de produção e circulação do Texto 4 e assinale a afirmativa CORRETA.
O texto trata dos conflitos vividos pela mulher de hoje: vivendo em um ambiente modernamente digital e pleno do ideal feminista, a protagonista é parte de um feminismo empoderado, mas ainda está presa ao ideal do “felizes para sempre”.
A inserção de A Bela e a Fera no Texto 4 constitui uma ironia, um antimodelo à realidade feminina atual, uma espécie de lente mágica que amplia o olhar sobre a violência por vezes disfarçada que vitimiza muitas mulheres de hoje.
O texto de Manuela Cantuária se opõe frontalmente à contemporaneidade, na medida em que deprecia o feminismo e práticas contemporâneas, como os seguintes elementos citados: busca no Google, karaokê, selfies, superexposição, cancelamento.
Na construção do texto, o conjunto de palavras e expressões que remetem ao mundo dos contos de fadas, como “Era uma vez”, “príncipe”, “felizes para sempre” etc., tem a finalidade de construir a ideia contemporânea de feminismo.
O “rapaz que em nada parecia um príncipe”, de certa forma, decepcionou a protagonista, já que ele quebrou as suas expectativas de um final feliz quando, por exemplo, não elogiou a sua beleza nem tentou beijá-la.
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