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UECE 2013
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UECE 2013

Texto 2

 

  O conto que vem a seguir é classificado como fantástico. O conto fantástico se constitui de uma narrativa em que se chocam o plano do natural e o plano do sobrenatural (vocábulo que indica somente o que não é natural, não tem conotação religiosa). Nesse conflito, o âmbito do sobrenatural invade o âmbito do natural, geralmente desestruturando-o. O desfecho de uma narrativa fantástica não deve proporcionar, ao contrário do desfecho da narrativa de mistério, um esclarecimento, no texto, para o fato sobrenatural.

 

A LUA

“Seja aquela uma noite solitária, e não digna de louvor.” (Jó, III, 7)

 

  Nem luz, nem luar. O céu e as ruas  

apareciam escuros, prejudicando, de certo  

modo, os meus desígnios. Sólida, porém, era a  

[70] minha paciência e eu nada fazia senão vigiar  

os passos de Cris. Todas as noites, após o  

jantar, esperava-o encostado ao muro de sua  

residência, despreocupado em esconder-me ou  

tomar qualquer precaução para fugir aos seus  

[75] olhos, pois nunca se inquietava com o que  

poderia estar se passando em torno dele. A  

profunda escuridão que nos cercava e a  

rapidez com que, ao sair de casa, ganhava o  

passeio jamais me permitiram ver-lhe a  

[80] fisionomia. Resoluto, avançava pela calçada,  

como se tivesse um lugar certo para ir. Pouco  

a pouco, os seus movimentos tornavam-se  

lentos e indecisos, desmentindo-lhe a  

determinação anterior. Acompanhava-o com  

[85] dificuldade. Sombras maliciosas e traiçoeiras  

vinham ao meu encontro, forçando-me a  

enervantes recuos. O invisível andava pelas  

minhas mãos, enquanto Cris, sereno e  

desembaraçado, locomovia-se facilmente. Não  

[90] parasse ele repetidas vezes, impossível seria a  

minha tarefa. Quando vislumbrava seu vulto,  

depois de tê-lo perdido por momentos,  

encontrava-o agachado, enchendo os bolsos  

internos com coisas impossíveis de serem  

[95] distinguidas de longe. 

  Na volta, de madrugada, Cris ia retirando  

de dentro do paletó os objetos que colhera na  

ida e, um a um, jogava-os fora. Tinha a  

impressão de que os olhava com ternura antes  

[100] de livrar-se deles.

*** 

  Alguns meses decorridos, os seus passeios  

obedeciam ainda a uma regularidade  

constante. Sim, invariável era o trajeto  

seguido por Cris, não obstante a aparente falta  

[105] de rumo com que caminhava. Atingia a zona  

suburbana da cidade, onde os prédios eram  

raros e sujos. Somente estacava ao deparar  

uma casa de armarinho, em cuja vitrina,  

forrada de papel crepom, encontrava-se  

[110] permanentemente exposta uma pobre boneca.  

Tinha os olhos azuis e um sorriso de massa. 

*** 

  Uma noite — já me acostumara ao negro  

da noite — constatei, ligeiramente  

surpreendido, que os seus passos não nos  

[115] conduziriam pelo itinerário da véspera. (Havia  

algo que ainda não amadurecera o suficiente  

para sofrer tão súbita ruptura.) 

  Nesse dia, o andar firme, seguiu em linha  

reta. Atravessou o centro urbano, deixou para  

[120] trás a avenida em que se localizava o comércio  

atacadista. Apenas se demorou uma vez — 

assim mesmo momentaneamente — defronte 

a um cinema, no qual meninos de outros  

tempos assistiam filmes em série. Fez menção  

[125] de comprar entrada, o que deveras me  

alarmou. Contudo, sua indecisão foi breve e  

prosseguiu a caminhada. Enfiou-se pela rua do  

meretrício, parando a espaços, diante dos  

portões, espiando pelas janelas, quase todas  

[130] muito próximas do solo. 

  Em frente a uma casa baixa, a única da  

cidade que aparecia iluminada, estacionou  

hesitante. Tive a impressão de que aquele  

seria o instante preciso, pois, se Cris  

[135] retrocedesse, não lograria outra oportunidade.  

Corri para seu lado e, sacando do punhal,  

mergulhei-o nas suas costas. Sem um gemido  

e o mais leve estertor, caiu no chão. Do seu  

corpo magro saiu a lua. Uma meretriz que  

[140] passava, talvez movida por impensado gesto,  

agarrou-a nas mãos, enquanto uma garoa de  

prata cobria a roupa do morto. A mulher,  

vendo o que sustinha entre os dedos, se  

desfez num pranto convulsivo. Abandonando a  

[145] lua, que foi varando o espaço, ela escondeu a  

face no meu ombro. Afastei-a de mim. E,  

abaixando-me, contemplei o rosto de Cris. Um  

rosto infantil, os olhos azuis. O sorriso de  

massa. 

Murilo Rubião. Contos reunidos. p. 133-135. 

 

Observe o que se diz sobre a técnica da narrativa em foco.

 

I. A narrativa é feita em primeira pessoa, por um narrador que, sendo também personagem, narra somente de sua perspectiva. A narrativa em primeira pessoa é apropriada ao conto fantástico porque quem narra é a mesma pessoa que viveu o episódio narrado. Não o ouviu de terceiros.

II. A narrativa é feita por um narradorpersonagem onisciente, que penetra no interior das outras personagens e consegue ler seus pensamentos. Essa técnica narrativa não é apropriada ao conto fantástico, uma vez que o narrador, sendo consciente de tudo, sabe qual o mistério que dá sustentação ao sobrenatural.

III. A narração é feita da perspectiva da personagem não-narradora. Essa personagem, participando dos acontecimentos, segue as outras personagens e pode narrar tudo o que elas fazem e até prever o que estão escondendo e guardando para ser revelado somente no final, o que aumenta a sensação do mistério.

 

Está correto o que se diz somente em

a

I. 

b

I e III. 

c

II e III. 

d

II.

Resposta
A
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