Publicado em 1944, o romance Perto do coração selvagem marcou o surgimento de Clarice Lispector (1920- 1977) no cenário literário brasileiro. O trecho a seguir faz parte do primeiro capítulo da obra.
O pai...
A máquina do papai batia tac-tac... tac-tac-tac... O relógio acordou em tin-dlen sem poeira. O silêncio arrastou-se zzzzzz. O guarda-roupa dizia o quê? rouparoupa-roupa. Não, não. Entre o relógio, a máquina e o silêncio havia uma orelha à escuta, grande, cor-de-rosa e morta. Os três sons estavam ligados pela luz do dia e pelo ranger das folhinhas da árvore que se esfregavam umas nas outras radiantes.
Encostando a testa na vidraça brilhante e fria olhava para o quintal do vizinho, para o grande mundo das galinhas-que-não-sabiam-que-iam-morrer. E podia sentir como se estivesse bem próxima de seu nariz a terra quente, socada, tão cheirosa e seca, onde bem sabia, bem sabia uma ou outra minhoca se espreguiçava antes de ser comida pela galinha que as pessoas iam comer.
(LISPECTOR, Clarice. Perto do coração selvagem. Rio de Janeiro: Rocco,1998. p. 13)
A respeito do trecho selecionado, assinale a alternativa INCORRETA:
Há duas personagens na cena narrada: uma criança e seu pai.
O registro da situação é atravessado por uma subjetividade, apesar da narração em 3ª pessoa.
Lançando mão de recursos poéticos variados, a linguagem destaca-se por sua expressividade e sensorialidade.
A presença da natureza, associada ao uso da técnica do fluxo de consciência, sugere uma experiência epifânica em curso.
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