( PROPOSTA DE REDAÇÃO )
A conduta dos pais na educação de seus filhos é um tema que tem chamado bastante atenção nos últimos tempos. Especialmente, tem-se discutido a eficácia ou não de duas práticas educativas antagônicas, sendo uma predominantemente oriental e a outra, ocidental. A esse respeito, leia a coletânea de textos a seguir.
TEXTO 1
Desde que a autora do best-seller Battle Hymn of the Tiger Mother (O hino de guerra da mãe tigre), Amy Chua publicou o texto “Porque as mães chinesas são superioras”, no Wall Street Journal, acirrou-se, especialmente nos EUA, o debate sobre a necessidade de criar os filhos na linha dura ou na base de um autoritário modo asiático. A ansiedade não está apenas na família, ou seja, como educar os filhos para uma vida competitiva, mas também na rivalidade dos EUA com o tigre chinês. A mensagem de Amy Chua parece ser também contra o anacronismo ocidental, embora ela seja americana. Amy Chua, filha de imigrantes chineses, é altamente bem-sucedida. Estudou em Harvard, é professora de Direito em Yale e casada com outro professor de Yale (um judeu americano). No livro, há relatos de como ela inferniza a vida das duas filhas para serem nota 10 (como a mãe). Foram criadas sob regras que alguns mais histéricos dizem equivaler a abuso infantil. As garotas devem ser primeiro lugar em tudo, agir com perfeccionismo até para escrever um cartão de feliz aniversário e ter uma vida de quartel: nada de televisão, vida social ou dormir na casa das amigas. Quando as meninas não correspondem às altas expectativas, castigos e chacotas da mãe tigresa. Pois bem, existem os excessos, mas creio que o livro chegou em boa hora. Não basta rebater os argumentos e o método de Amy Chua com a ladainha de que tudo vai dar certo porque os EUA são movidos à inovação e criatividade. Sempre aparece um Mark Zuckerberg (Facebook), que nem terminou Harvard, como o Bill Gates. Alguns rugidos da mãe tigre são benéficos. É preciso forçar mais os filhos, herdeiros menos privilegiados de uma sociedade que vai exigir cada vez mais sacrifícios. É preciso se preparar com mais rigor, dar menos moleza e explorar mais a fundo o potencial e a capacidade da criançada para tolerar dissabores. Mais alguns pontos para a mãe tigre: chega de investir tanto na autoestima, negligenciando algumas verdades sobre a vida. Sem fazer muito sociologia, mas também correndo o risco de ser banal no exemplo, realmente incomoda esta mania de dar troféu para qualquer criança. Só porque ela jogou? É preciso exigir mais e guardar elogios para ocasiões especiais. Chega do infame “Bom trabalho”! Um filho que arruma a cama faz um bom trabalho? Não deveria passar de trabalho obrigatório.
BLINDER, Caio, A mãe tigresa, o modelo chinês e a ansiedade americana. Disponível em: <veja.abril.com.br/blog/nova-york/china/a-mae-tigresa-o-modelo-chines-e-a-ansiedade-americana/ 2/25>. Acesso em: 6 ago. 2012. (Adaptado).
TEXTO 2
Se quisermos que os alunos recordem melhor ou exercitem mais o pensamento, devemos fazer com que as atividades sejam emocionalmente estimuladas. A experiência e a pesquisa têm mostrado que um fato impregnado de emoção é recordado mais sólido, firme e prolongado que um feito indiferente. Cada vez que comunicarem algo ao aluno, tentem afetar seu sentimento. A emoção não é uma ferramenta menos importante que o pensamento.
VYGOTSKY, Lev Semenovich. Psicologia pedagógica. Porto Alegre: Arte Médica, 2003. p. 122.
TEXTO 3
Depois de dois anos fazendo pesquisas numa escola de Nova York, a psicóloga Carol Dweck, da Universidade Stanford, descobriu que quem vê a inteligência como uma qualidade inata tem menos motivação para aprender do que quem acha que a inteligência é maleável, que pode ser exercitada e ampliada. Os alunos que acreditam na “inteligência inata” evitam desafios, desistem mais facilmente diante de obstáculos, enxergam o esforço como coisa inútil e se sentem ameaçados pelo sucesso alheio. Já a turma da “inteligência maleável” gosta de desafios, não recua diante de obstáculos, encara o esforço como um meio de se aperfeiçoar e se inspira no sucesso alheio. Como a crença da inteligência maleável favorece a criança, a mãe que elogia o esforço do filho – e não o talento – tende a ensiná-lo que a raiz do seu sucesso está no empenho, e não no dom inato.
PETRY, André. Mãe tigre funciona, mas com um toque de panda. Veja. São Paulo, 6 jul. 2011. p. 108. (Adaptado).
TEXTO 4
É que, se os homens são estes seres da busca e se sua vocação ontológica é humanizar-se, podem, cedo ou tarde, perceber a contradição em que a “educação autoritária” pretende mantê-los e engajar-se na luta por sua libertação. Um educador humanista, revolucionário, não há de esperar esta possibilidade. Sua ação, identificando-se, desde logo, com a dos educandos, deve orientar-se no sentido da humanização de ambos. Do pensar autêntico e não no sentido da doação, da entrega do saber. Sua ação deve estar infundida da profunda crença nos homens. Crença no seu poder criador. Isto tudo exige dele que seja um companheiro dos educandos, em suas relações com estes. A educação “autoritária”, em cuja prática se dá a inconciliação educador-educandos, rechaça este companheirismo. Saber com os educandos, enquanto estes soubessem com ele, seria sua tarefa. Já não estaria a serviço da desumanização, a serviço da opressão, mas a serviço da libertação. Esta concepção implica, além dos interesses já referidos, em outros aspectos que envolvem sua falsa visão dos homens. Aspectos ora explicitados, ora não, em sua prática. Sugere uma dicotomia inexistente homens-mundo. Homens simplesmente no mundo e não com o mundo e com os outros. Homens espectadores e não recriadores do mundo. Concebe a sua consciência como algo especializado neles e não aos homens como “corpos conscientes”. A consciência como se fosse alguma seção “dentro” dos homens, mecanicistamente compartimentada, passivamente aberta ao mundo que a irá “enchendo” de realidade. Mas, se para a concepção “autoritária”, a consciência é, em sua relação com o mundo, esta “peça” passivamente escancarada a ele, a espera de que entre nela, coerentemente concluirá que ao educador não cabe nenhum outro papel que não o de disciplinar a entrada do mundo nos educandos. Seu trabalho será, também, o de imitar o mundo. O de ordenar o que já se faz espontaneamente. O de “encher” os educandos de conteúdos.
FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. São Paulo: Paz e Terra. 1987. p. 35. (Adaptado).
TEXTO 5
A pura, a santa verdade é a seguinte: − qualquer jogador de futebol brasileiro, quando se desamarra de suas inibições e se põe em estado de graça, é algo de único em matéria de fantasia, de improvisação, de invenção. Em suma: − temos dons em excesso. E só uma coisa nos atrapalha e, por vezes, invalida as nossas qualidades. Quero aludir ao que eu poderia chamar de “complexo de vira-latas”, o que entendo eu como a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo. Isto em todos os setores e, sobretudo, no futebol. Dizer que nós nos julgamos “os maiores” é uma cínica inverdade. Em Wembley, por que perdemos? Porque diante do quadro inglês, louro e sardento, a equipe brasileira ganiu de humildade. Jamais foi tão evidente e, eu diria mesmo, espetacular o nosso vira-latismo. Na já citada vergonha da Copa de 50, éramos superiores aos adversários. Além disso, levávamos a vantagem do empate. Pois bem: − e perdemos de maneira mais abjeta. Por um motivo simples: − porque Obdulio (principal jogador da seleção adversária) nos tratou a pontapés, como se vira-latas fôssemos. Eu vos digo: − o problema da seleção não é mais de futebol, nem de técnica, nem de tática. Absolutamente. É um problema de fé em si mesma.
RODRIGUES, Nelson. Complexo de vira-latas. In: CASTRO, Ruy. À sombra das chuteiras imortais. São Paulo: Cia. das Letras, 1993. p. 51-52. (Adaptado).
TEXTO 6
Diante do espetacular desempenho da cidade de Xangai no teste do Pisa (que se tornou a olimpíada da educação mundial), escrevi sobre as mães chinesas para quem o método de educação consiste na disciplina rígida, imposta por meio da vara de marmelo e do foco obsessivo nos assuntos da escola. Isso tudo sob o manto de uma tradição confucionista que dá autoridade aos pais e valoriza a educação. Como me escreveu uma leitora sino-brasileira, eis “a regra que chineses têm adotado desde sempre: exigir o máximo de si e dos filhos. E dormir tranquilos, certos de haver feito o melhor”. Larry Wolff, judeu americano, comentou uma versão preliminar: comparados aos chineses, os alunos judeus são igualmente bons no SAT (uma prova equivalente ao nosso ENEM) e muito melhores em criatividade. As famílias judias são muito centradas nas crianças – fazem delas o centro do afeto e atenção (por exemplo, gastos elevados em bar mitzvah, festas, acampamentos, viagens etc.). Além disso, tal como os chineses têm expectativas muito elevadas em relação aos filhos.
Contudo, expressam tais pressões de forma mais sutil e afetiva, reconhecendo que há outras aptidões que vão além das acadêmicas. No estilo judeu, em vez de vara de marmelo há um toque de chantagem emocional, “meu filhinho adorado, sua mãe vai ficar muito infeliz se você não for o primeiro”. Para elas, funciona melhor um método gentil, sem ameaças nem violências. É mais sub-reptício, usando culpa ou despejando afeto nas crianças. Para que ameaças? As mães chinesas insistem mais em obediência, as judias encorajam a argumentação, seguindo a tradição judaica de discutir tudo. Em sociedades modernas e confusas, a dialética da discussão é preciosa. Seja qual for a explicação a fórmula vem dando certo. A população judaica mal chega a 14 milhões. É mais ou menos como a cidade de São Paulo. Soma 0,2% da população mundial. Não obstante, 128 Prêmios Nobel foram para os judeus, correspondendo a aproximadamente 20% de todos os premiados.
CASTRO, Cláudio de Moura. Mãe chinesa ou mãe judia? Veja. São Paulo, 6 abr. 2011. p. 26. (Adaptado).
TEXTO 7
Medalhistas olímpicos em Londres, Cesar Cielo e Thiago Pereira tinham expressões completamente diferentes em entrevistas à imprensa. Enquanto Pereira estava visivelmente feliz com sua prata nos 400m medley, o campeão olímpico e mundial tentava esconder a chateação pelo bronze nos 50m livre, sua especialidade. “Vim pra defender esse título e ganhar. Não foi a noite que imaginei...", afirmou Cielo sobre a final quando ficou atrás do francês Florent Manadou e do norte-americano Cullen Jones. Apesar de decepcionado, o nadador lembrou da importância da conquista de uma medalha para o país. "Mas tenho uma medalha no bolso e tenho que valorizar. Agora eu vou pra frente. A gente não pode achar que toda hora vai ganhar. Tem que estar esperançoso sempre. Deu certo para mim durante quatro anos. Tenho medalhas que poucos atletas no mundo têm. Não posso dizer que estou decepcionado, foi mais um ano que eu conquistei uma medalha. Seria um desrespeito para o esporte dizer que é um completo desapontamento. Vamos ver o lado positivo das coisas", disse Cielo. Ao lado de um tristonho Cielo, Thiago Pereira distribuía sorrisos. A medalha de prata, no entanto, não tira o foco do nadador para os Jogos Olímpicos do Rio, em 2016. Isso porque agora ele vai atrás de uma conquista em sua especialidade, os 200m medley. "Eu agora vou atrás da medalha na minha prova. Somos uma geração que poderá nadar no Rio em um Pan-Americano e em uma Olimpíada. Eu já estou me convocando para os Jogos do Rio", brincou o nadador, sem tirar o sorriso do rosto.
BASTOS, Moreno. Com astrais diferentes, Cielo e Pereira valorizam medalhas olímpicas. Disponível em: <http://memoria.ebc.com.br/portal/empresa>. Acesso em: 4 ago. 2012. (Adaptado).
TEXTO 8
De quem e de que, de fato, posso dizer "conheço isso"? Este coração, em mim, posso experimentá-lo e julgo que ele existe. Este mundo, posso tocá-lo e julgo ainda que ele existe. Para aí toda a minha ciência, o resto é construção. Porque, se tento agarrar este eu de que me apodero, se tento defini-lo e sintetizá-lo, ele não é mais do que uma água que corre entre meus dedos. Posso desenhar um por um todos os rostos que ele sabe usar, todos aqueles também que lhe foram dados, essa educação, essa origem, esse ardor ou esses silêncios, essa grandeza ou essa mesquinhez. Mas não se adicionam rostos. Até este coração que é o meu continuará sendo sempre, para mim, indefinível. Entre a certeza que tenho da minha existência e o conteúdo que tento dar a essa segurança, o fosso jamais será preenchido. Serei para sempre um estranho diante de mim mesmo. Em psicologia, como em lógica, há verdades mas não há verdade. O "conhece-te a ti mesmo" de Sócrates tem tanto valor quanto o "sê virtuoso" dos nossos confessionários. Revelam uma nostalgia, ao mesmo tempo que uma ignorância. São jogos estéreis sobre grandes assuntos.
CAMUS, Albert. O mito de Sísifo. São Paulo: Record, 2004. p. 36. (Adaptado).
Com base na leitura da coletânea, discuta a seguinte questão-tema:
O que realmente pesa na educação dos filhos: a flexibilidade e o afeto ou a rigidez e a disciplina?
CARTA ARGUMENTATIVA
A carta de leitor é um gênero textual, comumente argumentativo, que circula em jornais e revistas e tem como objetivo emitir um parecer de leitor sobre matérias e opiniões diversas publicadas nesses meios de comunicação.
Considerando a definição desse gênero textual, a leitura da coletânea e, ainda, suas experiências pessoais, imagine-se na condição de pai ou mãe de uma criança que competiu ou ainda irá competir em um campeonato esportivo em sua escola. Escreva uma carta de leitor à revista Veja, emitindo seu ponto de vista − contrário, favorável ou outro que transcenda esses posicionamentos − a respeito da opinião exposta no Texto 1 da coletânea.
OBSERVAÇÃO: Ao concluir sua carta, NÃO a assine subscreva-a com a expressão UM(A) LEITOR(A).