Para responder à questão, leia o conto indígena “Mboi-tatá ou Fogo-fátuo”, história contada por Yaguareçá Sukuyê e escrita por Yaguarê Yamã.
Fogo-fátuo é o nome pelo qual se conhece o Mboi-tatá, que em nhengatu significa “cobra de fogo”. Ele é um ser visajento1 , brilhante, que para os Maraguá, e especialmente para os habitantes do rio Urariá, se apresenta como uma luz que pinga, como se fosse uma vela.
Certa vez, um rapaz de uma aldeia saiu para ir a uma festa na aldeia vizinha. Muito interessado nas moças, ele demorou muito e acabou voltando depois da meia-noite. Como não havia levado lamparina para alumiar o caminho, foi andando aos tropeções pelo cacoal2 de uns dois quilômetros que separava as duas aldeias. Sempre é perigoso andar por dentro do cacoal, pois a luz do luar não atravessa as árvores, e muitas vezes há cobras venenosas, como a surukuku, a mais temida da região.
O rapaz vinha o tempo todo olhando para trás, torcendo para que viesse alguém com uma lamparina. Mas não vinha ninguém, e ele continuava andando, sempre com muito medo de ser picado por alguma cobra. De repente ele avistou uma luz muito ao longe e resolveu esperar, achando que fosse alguém da aldeia que vinha na sua direção. Quando a luz se aproximou, ele chamou:
— Olá, amigo, quem é você?
Só que ninguém respondeu. O rapaz recomeçou a andar, bem devagarinho, e meio cismado tornou a falar:
— Olá, amigo, está indo para a aldeia?
Mais uma vez, ninguém respondeu. Muito desconfiado, o rapaz acelerou o passo. A luz se tornou mais forte e, pingando como uma vela, foi se aproximando mais depressa. O rapaz não quis ver mais nada. Saiu correndo, tropeçando no meio da escuridão, caindo e se levantando, com a luz misteriosa sempre atrás dele, tentando alcançá-lo.
Cansado de tanto correr, quase entregando os pontos, ele acabou deixando a escuridão do cacoal e avistou a aldeia logo à sua frente. Não deu nem para chegar em casa. Passou como um relâmpago pelo meio dos cachorros que latiam e se jogou contra a porta do primeiro tapiry3 que encontrou. Com o tranco, arrebentou a esteira de japá4 e caiu para dentro. O dono da casa acordou assustado, ouviu a história do rapaz e os dois saíram juntos para o terreiro. A luz estranha tinha sido atacada pelos cachorros, e eles ainda a viram se afastando e voltando a entrar no cacoal.
No dia seguinte a aldeia toda ficou sabendo do caso, e nunca mais ninguém teve coragem de passar por aquele cacoal à noite.
(Yaguarê Yamã. Murũgawa: mitos, contos e fábulas do povo Maraguá, 2007.)
1 ser visajento (ou visagento): ser sobrenatural.
2 cacoal: aglomerado de cacaueiros.
3 tapiry: choupana que serve de abrigo.
4 japá: esteira de palha para cobrir ou servir de porta.
Observa-se o emprego de uma expressão própria da linguagem coloquial no seguinte trecho do conto:
“A luz se tornou mais forte e, pingando como uma vela, foi se aproximando mais depressa” (8º parágrafo).
“O dono da casa acordou assustado, ouviu a história do rapaz e os dois saíram juntos para o terreiro” (9º parágrafo).
“Certa vez, um rapaz de uma aldeia saiu para ir a uma festa na aldeia vizinha” (2º parágrafo).
“ele continuava andando, sempre com muito medo de ser picado por alguma cobra” (3º parágrafo).
“Cansado de tanto correr, quase entregando os pontos, ele acabou deixando a escuridão do cacoal” (9º parágrafo).
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