Leia o texto “Um cinturão”, de Graciliano Ramos, para responder à questão.
As minhas primeiras relações com a justiça foram dolorosas e deixaram-me funda impressão. Eu devia ter quatro ou cinco anos […].
Meu pai dormia na rede, armada na sala enorme. Tudo é nebuloso. Paredes extraordinariamente afastadas, rede infinita, […] e meu pai acordando, levantando-se de mau humor, batendo com os chinelos no chão, a cara enferrujada. Naturalmente não me lembro da ferrugem, das rugas, da voz áspera, do tempo que ele consumiu rosnando uma exigência. […]
Débil e ignorante, incapaz de conversa ou defesa, fui encolher-me num canto, para lá dos caixões verdes. Se o pavor não me segurasse, tentaria escapulir-me […]. Só queria que minha mãe, sinhá Leopoldina, Amaro e José Baía surgissem de repente, me livrassem daquele perigo.
Ninguém veio, meu pai me descobriu acocorado e sem fôlego, colado ao muro, e arrancou-me dali violentamente, reclamando um cinturão. Onde estava o cinturão? Eu não sabia, mas era difícil explicar-me: atrapalhava-me, gaguejava, embrutecido, sem atinar com o motivo da raiva. […]
O assombro gelava-me o sangue, escancarava-me os olhos.
Onde estava o cinturão? Impossível responder. Ainda que tivesse escondido o infame objeto, emudeceria, tão apavorado me achava. […]
O homem não me perguntava se eu tinha guardado a miserável correia: ordenava que a entregasse imediatamente. […]
Hoje não posso ouvir uma pessoa falar alto. O coração bate-me forte, desanima, como se fosse parar, a voz emperra, […] uma cólera doida agita coisas adormecidas cá dentro. […] Onde estava o cinturão? A pergunta repisada ficou-me na lembrança: parece que foi pregada a martelo. […]
Havia uma neblina, e não percebi direito os movimentos de meu pai. Não o vi aproximar-se do torno e pegar o chicote. A mão cabeluda prendeu-me, […] e a folha de couro fustigou-me as costas. […] Nenhum socorro. […]
Achava-me num deserto. […]
Junto de mim, um homem furioso, segurando-me um braço, açoitando-me. […]
O suplício durou bastante. […]
Solto, fui enroscar-me perto dos caixões, […] engolir soluços, gemer baixinho […]. Antes de adormecer, cansado, vi meu pai dirigir-se à rede, […] sentar-se e logo se levantar, agarrando uma tira de sola, o maldito cinturão, a que desprendera a fivela quando se deitara. Resmungou e entrou a passear agitado. Tive a impressão de que ia falar-me: baixou a cabeça, a cara enrugada serenou, os olhos esmoreceram, procuraram o refúgio onde me abatia, aniquilado.
Pareceu-me que a figura imponente minguava […]. Se meu pai se tivesse chegado a mim, eu o teria recebido sem o arrepio que a presença dele sempre me deu. Não se aproximou: conservou-se longe, rondando, inquieto. Depois se afastou.
Sozinho, vi-o de novo cruel e forte, soprando, espumando. E ali permaneci, miúdo, insignificante, tão insignificante e miúdo como as aranhas que trabalhavam na telha negra.
Foi esse o primeiro contato que tive com a justiça.
(Italo Moriconi (org). Os cem melhores contos brasileiros do século, 2001. Adaptado.)
Assinale a alternativa cuja afirmação sobre a expressão destacada esteja correta.
Em “Achava-me num deserto” (11o parágrafo), há conotação, indicando que o narrador se sentia desamparado.
Em “a cara enferrujada” (2o parágrafo), há denotação, indicando que o pai trazia o rosto vermelho de raiva.
Em “meu pai me descobriu acocorado e sem fôlego” (4o parágrafo), há conotação, indicando que o narrador tentava esconder-se do pai.
Em “Resmungou e entrou a passear agitado” (14o parágrafo), há denotação, indicando que o pai se divertiu muito com a situação
Em “O assombro gelava-me o sangue” (5o parágrafo), há conotação, indicando que o narrador era um garoto insolente.
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