Leia o texto a seguir, de autoria de Gregório de Matos, para responder à questão.
Que falta nesta cidade?
Verdade
Que mais por sua desonra
Honra
Falta mais que se lhe ponha
Vergonha.
O demo a viver se exponha,
por mais que a fama a exalta,
numa cidade, onde falta
Verdade, Honra, Vergonha.
Quem a pôs neste socrócio?
Negócio
Quem causa tal perdição?
Ambição
E o maior desta loucura?
Usura.
Notável desventura
de um povo néscio, e sandeu,
que não sabe, que o perdeu
Negócio, Ambição, Usura.
Quais são os seus doces objetos?
Pretos
Tem outros bens mais maciços?
Mestiços
Quais destes lhe são mais gratos?
Mulatos.
Dou ao demo os insensatos,
dou ao demo a gente asnal,
que estima por cabedal
Pretos, Mestiços, Mulatos.
E que justiça a resguarda?
Bastarda
É grátis distribuída?
Vendida
Quem tem, que a todos assusta?
Injusta.
Valha-nos Deus, o que custa,
o que El-Rei nos dá de graça,
que anda a justiça na praça
Bastarda, Vendida, Injusta.
*Socrócio: roubalheira. Usura: juros, rendimento de capital. Néscio: ignorante, estúpido. Sandeu: demente, louco, sem razão. Cabedal: bens materiais, riquezas.
Sobre o poema de Gregório de Matos, assinale a alternativa correta:
Expressa a faceta lírica do escritor, na medida em que, apesar de expor questões sociais prementes em sua época, o faz de modo poético por meio de um eu lírico que condensa em si o amor próprio do lirismo neoclássico.
Expressa a faceta sacra do escritor, na medida em que, ao não fazer uso de imagens cristãs no fragmento, separa sua poesia daquela de denúncia social, própria do período barroco.
Expressa a face poética do escritor, na medida em que se percebe o fazer da “arte pela arte”, haja vista o rigor métrico da criação, fazendo com que o poema refira-se exclusivamente ao fazer poético, de modo autotélico.
Expressa a face lírica do escritor, na medida em que, ao resgatar expedientes cervantinos, como os ovillejos, faz menção direta ao amor cavalheiresco, próprio da atualização que o barroco promovia do ideário medieval.
Expressa a faceta satírica do escritor, na medida em que expõe as mazelas sociais, por meio do jogo de linguagem operado nos versos que denunciam condições de corrupção e exploração de povos, por meio do mercado escravagista.
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