É fato sabido que a trajetória de João Cabral começa num surrealismo despojado da escrita automática, passa pelo ardor da construção e da lucidez, discute a pureza e a decantação da poesia antilírica e, descartando a desconfiança (então em moda) quanto à possibilidade de dizer o mundo e os seus conflitos, assume, de Morte e vida severina em diante, o lado sujo da miséria do Nordeste.
(Modesto Carone. “Severinos e comendadores”. In: Roberto Schwarz (org). Os pobres na literatura brasileira, 1983.)
Segundo Modesto Carone, o trecho que melhor ilustra a última fase da poesia de João Cabral é:
O mar, que só preza a pedra,
que faz de coral suas árvores,
luta por curar os ossos
da doença de possuir carne,
Sobre o lado ímpar da memória
o anjo da guarda esqueceu
perguntas que não se respondem.
Com peixes e cavalos sonâmbulos
pintas a obscura metafísica
do limbo.
Ó face sonhada
de um silêncio de lua,
na noite da lâmpada
pressinto a tua.
As nuvens são cabelos
crescendo como rios;
são os gestos brancos
da cantora muda;
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