Considere o texto a seguir para responder à questão.
Álvaro, me adiciona
“‘Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meu conhecidos têm sido campeões em tudo.’ Espanta que Álvaro de Campos tenha dito isso antes do advento das redes sociais. O heterônimo parece estar falando da minha timeline: ‘Arre, estou farto de semideuses! Onde é que há gente no mundo?’
Todo post é autoelogioso. Não se deixe enganar. Talvez você pense o contrário: meu Facebook só tem gente reclamando da vida. Olhe de novo. Por trás de cada reclamação, de cada protesto, de cada autocrítica, perceba, camufladinha, a vontade de parecer melhor que o resto do mundo.
‘Humblebrag’ é uma palavra que faz falta em português. Composta pela junção das palavras humble (humilde) e brag (gabar-se), seria algo como a gabação modesta. Em vez de simplesmente gabar-se. ‘Ganhei um prêmio de melhor ator no Festival de Gramado’, você diz: ‘O Festival de Gramado está muito decadente. Para vocês terem uma ideia, me deram um prêmio de melhor ator’. Ou então: ‘Pessoal, moro num apartamento mínimo! Por favor parem de me dar prêmios, não tenho mais onde guarda-los. Grato’.
O ‘humblebragging’ pode tomar muitas formas. ‘Tenho um defeito terrível. Sou perfeccionista’. Ou então: ‘Tenho uma falha imperdoável. Sou sincero demais’. Quer ver alguém falar a verdade: ‘Tenho um defeito: só penso em mim mesmo, o que faz com que eu seja pouquíssimo confiável – além de ter uma higiene deplorável’.
Não menos sutil é o elogio-bumerangue. Você começa falando bem de alguém. Alo, no meio do elogio alheio, você encaixa uma menção a si mesmo, disfarçadinha. ‘O Rafa é muito humano, parceiro, sincero. Se não fosse ele, eu nunca teria chegado onde cheguei, e criado o maior canal do YouTube brasileiro. Obrigado, Rafa. Obrigado.’
O elogio-bumerangue tem uma subdivisão especialmente macabra: o elogio-bumerangue-post-mortem, no qual você aproveita os holofotes gerados pela morte de alguém para chamar atenção para si (às vezes até atribuindo palavras ao defunto). ‘O Zé era um gênio. Ainda por cima muito generoso. Foi a primeira pessoa a perceber o meu talento como ator. Um dia me disse: Gregório, você é o melhor ator da sua geração. Obrigado, Zé. Obrigado.’
Atenção: se todo post é vaidoso, toda coluna também. Percebam o uso de palavras em inglês, a citação a Fernando Pessoa. Tudo o que eu mais quero é que vocês me achem o máximo. ‘Então sou só eu que sou vil e errôneo nessa terra?’ Não, Álvaro. Me adiciona.”
(DUVIVIER, Gregório. Álvaro, me adiciona. Folha de S. Paulo: Coluna Gregório Duvivier. Publicada em: 4 maio 2015. Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/colunas/gregorioduvivier/2015/05/1624271-alvaro-me-adiciona.shtml. Acesso em 25 nov. 2018).
A palavra humblebragging não pertence à Língua Portuguesa e foi utilizada pelo autor pois, segundo ele, não há uma palavra na Língua Portuguesa que consiga traduzir o conceito que ele deseja expressar ao utilizar esse estrangeirismo.
Qual é a intenção do autor ao empregar a palavra humblebragging?
Descrever as pessoas que utilizam falsa modéstia ao postarem mensagens nas redes sociais.
Provar que a Língua Portuguesa é limitada em seu vocabulário e que a Língua Inglesa oferece muito mais oportunidades a um escritor.
Comparar a palavra ao que, em Língua Portuguesa, é chamado de elogio-bumerangue, pois os dois têm o mesmo sentido: pessoas viciadas em postar intimidades nas redes sociais.
Fazer uma crítica ao uso excessivo das redes sociais, o que pode prejudicar a autoestima das pessoas.
Explicar a interferência das redes sociais na formação de personalidades de fama instantânea.
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