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UNIFAN Medicina 2019/2

CANTO DO PIAGA

DIAS, Gonçalves. In: Poemas de Gonçalves Dias. Rio de Janeiro: Ediouro, s/d. p. 21-23.

 

I

Ó Guerreiros da Taba sagrada,
Ó Guerreiros da Tribo Tupi,
Falam Deuses nos cantos do Piaga,
Ó Guerreiros, meus cantos ouvi.
Esta noite – era a lua já morta –
Anhangá me vedava sonhar;
Eis na horrível caverna, que habito,
Rouca voz começou-me a chamar.
Abro os olhos, inquieto, medroso,
Manitôs! que prodígios que vi!
Arde o pau de resina fumosa,
Não fui eu, não fui eu, que o acendi!
Eis rebenta a meus pés um fantasma,
Um fantasma d'imensa extensão;
Liso crânio repousa a meu lado,
Feia cobra se enrosca no chão.
O meu sangue gelou-se nas veias,
Todo inteiro – ossos, carnes – tremi,
Frio horror me coou pelos membros,
Frio vento no rosto senti.
Era feio, medonho, tremendo,
Ó Guerreiro, o espectro que eu vi
Falam Deuses nos cantos do Piaga,
Ó Guerreiros, meus cantos ouvi!

 

II
Por que dormes, ó Piaga divino?
Começou-me a Visão a falar,
Por que dormes? O sacro instrumento
De per si já começa a vibrar.
Tu não viste nos céus um negrume
Toda a face do sol ofuscar;
Não ouviste a coruja, de dia,
Seus estrídulos torva soltar?
Tu não viste dos bosques a coma
Sem aragem – vergar-se e gemer,
Nem a lua de fogo entre nuvens,
Qual em vestes de sangue, nascer?
E tu dormes, ó Piaga divino!
E Anhangá te proíbe sonhar!
E tu dormes, ó Piaga, e não sabes,
E não podes augúrios cantar?!
Ouve o anúncio do horrendo fantasma, 

Ouve os sons do fiel Maracá;
Manitôs já fugiram da Taba!
Ó desgraça! ó ruína! ó Tupá!

 

III
Pelas ondas do mar sem limites
Basta selva, sem folhas, i vem;
Hartos troncos, robustos, gigantes;
Vossas matas tais monstros contêm.
Traz embira dos cintos pendente
– Brenha espessa de vário cipó –
Dessas brenhas contêm vossas matas,
Tais e quais, mas com folhas; é só!
Negro monstro os sustenta por baixo,
Brancas asas abrindo ao tufão,
Como um bando de cândidas garças,
Que nos ares pairando – lá vão.
Oh! quem foi das entranhas das águas,
O marinho arcabouço arrancar?
Nossas terras demanda, fareja...
Esse monstro... – o que vem cá buscar?
Não sabeis o que o monstro procura?
Não sabeis a que vem, o que quer?
Vem matar vossos bravos guerreiros.
Vem roubar-vos a filha, a mulher!
Vem trazer-vos crueza, impiedade –
Dons cruéis do cruel Anhangá;
Vem quebrar-vos a maça valente,
Profanar Manitôs, Maracás.
Vem trazer-vos algemas pesadas,
Com que a tribo Tupi vai gemer;
Hão de os velhos servirem de escravos,
Mesmo o Piaga inda escravo há de ser!
Fugireis procurando um asilo,
Triste asilo por ínvio sertão;
Anhangá de prazer há de rir-se,
Vendo os vossos quão poucos serão.
Vossos Deuses, ó Piaga, conjura,
Susta as iras do fero Anhangá.
Manitôs já fugiram da Taba,
Ó desgraça! ó ruína! ó Tupá! 

 

Glossário
Piaga: pajé, sábio ancião.
Anhangá: Deus indígena.
Manitôs: espíritos protetores.
Maracá: chocalho – instrumento indígena usado em solenidades religiosas e guerreiras.
Tupá: Deus indígena.

 

    Acerca de Gonçalves Dias, Alfredo Bosi manifesta: “[...] foi o primeiro poeta autêntico a emergir em nosso Romantismo. [...] O núcleo “americano”, que pela intensidade expressiva, se prendeu
ao nome do poeta, é, de fato, exíguo no conjunto da
obra gonçalvina que vive dos grandes temas românticos do amor, da natureza, de Deus. Mas é preciso
ver na força de Gonçalves Dias indianista o ponto
exato em que o mito do bom selvagem, constante
desde os árcades, acabou por fazer-se verdade artística.”.

BOSI, Alfredo. História concisa da Literatura Brasileira. São Paulo: Cultrix, 1997. p. 114-15.

Analise as afirmações que se seguem, acerca do poema O canto do piaga:

 

1. A estrofe que inicia o poema é de exortação à tribo Tupi, em tom elocucional e conativo, numa advertência do eu lírico aos indígenas.

2. Gonçalves Dias concilia os paradigmas estéticos europeus e o processo cruel de colonização, embora denuncie poeticamente a invasão portuguesa, utiliza o processo de tradução arbitrária, muito utilizada na catequese, como no caso do deus indígena Anhangá, que é concebido, no poema, somente maleficamente, em acordo com a cultura europeia cristã.

3. O terceiro verso da terceira estrofe: [Arde o pau de resina fumosa] alude aos elementos de transcendência, utilizados pelos pajés de tribos indígenas.

4. O poema está dividido em partes, que evidenciam diferentes tensões líricas.

5. O recurso estilístico da musicalidade se faz presente com bastante ênfase, por exemplo: o ritmo do terceiro canto é bastante intenso e agressivo, devido à tonicidade empregada nas rimas.

6. Manitôs e Maracás são elementos espirituais negativos e que são evitados na cultura indígena.

7. O primeiro indício de que a invasão acontecerá está em acordo com as concepções indígenas de formação e criação de seres na Terra, uma concepção etiológica, ocasionada por fenômenos da natureza, como o indício de eclipse, na segunda estrofe da parte II. 8. A utilização de termos de língua indígena está em consonância com a característica que dá nome à fase Nacionalista.

9. Percebe-se, no poema, o sentimento de afirmação da Pátria que se formava, manifesto pela estética romântica, que preconizava a independência do Brasil e a abolição da escravatura, em 1822.

10. No poema, percebe-se a tentativa de formação de uma identidade brasileira, a partir da inserção dos três elementos predominantes na formação do povo: índio, português e negro.

 

A alternativa que corresponde à soma dos números das afirmações corretas é:

a

10.

b

16.

c

24.

d

30.

e

45.

Resposta
D
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