A namorada de Estêvão, – é tempo de dizer alguma coisa dela, – era uma moça de 17 anos, e, por ora, simples aluna-professora no colégio de uma tia do nosso estudante, à rua dos Inválidos. Estêvão tinha-a visto, pela primeira vez, seis meses antes, e desde logo sentiu-se preso por ela, “até à morte”, disse ele ao amigo, referindo-lhe o encontro, o que o fez sorrir de tão estirado prazo. Qualquer que ele fosse, porém, o prazo fatal daquele cativeiro, a verdade é que Estêvão no mesmo ponto em que a viu logo a amou, como se ama pela primeira vez na vida – amor um pouco estouvado e cego, mas sincero e puro. Amava-o ela? Estêvão dizia que sim, e devia crê-lo; alguns olhares ternos, meia dúzia de apertos de mão significativos, embora a largos intervalos, davam a entender que o coração de Guiomar – chamava-se Guiomar – não era surdo à paixão do acadêmico. Mas, fora disso, nada mais, ou pouco mais. O pouco mais foi uma flor, não colhida do pé em toda a original frescura, mas já murcha e sem cheiro, e não dada, senão pedida.
— Faz-me um favor? disse um dia Estêvão apontando para a flor que ela trazia nos cabelos; esta flor está murcha, e, naturalmente, vai deitá-la fora ao despentear-se; eu desejava que ma desse. Guiomar, sorrindo, tirou a flor do cabelo, e deu-lha; Estêvão recebeu-a com igual contentamento ao que teria se lhe antecipassem o seu quinhão do céu. Além da flor, e para suprir as cartas, que não havia, nada mais obtivera Estêvão durante aqueles seis compridos meses, a não ser os tais olhares, que afinal são olhares, e vão-se com os olhos donde vieram. Era aquilo amor, capricho, passatempo ou que outra coisa era?
O romance A Mão e a Luva, de Machado de Assis, apresenta as seguintes características em relação à representação da figura da mulher, EXCETO:
Guiomar apresenta traços de perspicácia e ambição; suas escolhas são pautadas pela consciência das poucas perspectivas sociais que restavam à mulher que não se casava.
Guiomar é uma personagem marcada por forte antagonismo: ela procura substituir a filha da baronesa com sinceridade, mas seus gestos são uma mistura de afeto e calculismo.
Mrs. Oswald é uma personagem que vive sob a égide de uma matriarca e à mercê de um sistema contraditório em si mesmo, a governanta inglesa, que se vale de artifícios para se fazer necessária na casa de sua protetora.
As mulheres do romance correspondem ao modelo romântico da época: eram inocentes e puras, não apresentando ainda o teor de perspicácia e manipulação que, mais tarde, caracterizaria as personagens femininas machadianas.
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